O espetáculo do constrangimento: individualismo e a trajetória do herói nos lutadores de MMA no filme O Espetáculo da Dor

Capa: O espetáculo do constrangimento: individualismo e a trajetória do herói nos lutadores de MMA no filme O Espetáculo da Dor

1 O espetáculo

O filme intitulado O Espetáculo da Dor, foi veiculado pela plataforma de streaming Ne-tflix e produzido em 2016 com 111 minutos de duração. Em sua sinopse afirma exibir “a história de diferentes astros das artes marciais e a sua batalha na indústria das lutas” no contexto dos campeonatos Mixed Marcial Arts (MMA).

O MMA diz respeito a uma de luta de ringue, um esporte de contato, que se pro-põe uma mistura de diversos estilos diferentes de luta corporal sem armas, em um só evento, permitindo golpes em pé ou no chão, respeitando um limite de tempo e uma forma de pontuação específica. Participam, dentre outros estilos menos comuns, o Jiu Jitsu, Boxe, Wrestling, Muay Thay e Karate. Muitas das vezes a competição MMA está associada ao termo Ultimate Fighting Championship (UFC), sendo a marca da empresa que organiza as lutas.

Criada em 1993, a UFC é uma organização profissional de artes marciais mistas (MMA) e as lutas são transmitidas1 para mais de 165 países e territórios. Segundo o site da empresa, a marca pertence ao grupo Endeavor2, que atua em escala global, e produz atividades que envolvem esportes, moda e entretenimento.

De maneira geral o termo arte marcial é muito associado ao campo desportivo re-presentando diversas formas de esportes de contato, assim como nos filmes de artes marciais que movimentam a indústria cinematográfica mundial. Muitos lutadores divergem sobre o objetivo e quais práticas representam “a verdadeira” arte marcial (PAI-VA, 2015), de qualquer forma ela está sempre associada a qualquer luta corporal que contenha uma técnica.

Dentre os autores que têm se dedicado ao estudo das artes marciais considerando seus campos de análise, temos o David E. Jones (2002), Wojciech J. Cynarski (2012) e Klens Bigman (2016); e cada um apresenta leituras sobre o contexto dessas práticas. No entanto, este trabalho não se propõe analisar o termo “arte marcial”, mas entender que os lutadores, no contexto do filme, se identificam como artistas marciais. Isso faz com que cheguemos mais próximo do significado do termo dentro desse contexto.

O filme se dedica em um momento a contar a história do MMA, e a narrativa não dife-re da legitimação da prática através de narrativas sobre a sua história, sendo comuns aquelas que marcam a origem em tempos remotos; como conta Bas Rutten3 no filme, quando diz que o MMA surgiu em 648 a.C. com o Pancrácio4, portanto tendo como origem a Grécia antiga.

Pensar no documentário como uma expressão completa do universo do MMA, como expressão fiel da realidade, pode ser um equívoco. Apesar da sua intenção de docu-mentar uma realidade, existe a construção de uma história, onde a escolha de diversas ferramentas técnicas de produção acaba por caracterizar uma narrativa específica. Isso nos impossibilita a tomada desse material como expressão pura do que é o universo real dos lutadores. Seguindo na mesma direção de Ramos (2008), quando pensou as construções narrativas de um documentário, Paul Henley (2016, p. 59) explica a ne-cessidade de haver uma narrativa no documentário para que não haja uma sequência confusa de imagens: “[S]e um filme não tem uma estrutura narrativa, ou se ele é muito difícil de interpretar, há então o risco de que o filme vá se deparar com uma sequência de vinhetas incompreensíveis e o público em breve ficará desinteressado”.

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