Resumo
Este trabalho reúne reflexões iniciais de uma pesquisa de doutorado em andamento, dedicada a investigar as relações entre indivíduo e coletividade na China moderna, com ênfase na produção cinematográfica da primeira metade do século XX. A partir da análise de filmes como arquivos simbólicos, propõe-se uma leitura antropológica das articulações entre categorias como “Estado”, “tradição”, “modernidade” e “etnicidade” — não como dados fixos, mas como campos de disputa. Sem pretensão de esgotar o tema, o texto busca levantar questões sobre os sentidos coletivos em disputa naquele contexto histórico, propondo reflexões sobre de que modo essas disputas ainda ressoam em formas contemporâneas de imaginar a coletividade na China.
Introdução
Escrever um texto que tem por pretensão expor elementos de uma pesquisa de doutorado, mantendo-se ainda em um tamanho razoável, não é tarefa simples. Quando essa pesquisa é sobre a China — e mais ainda, sobre um período histórico repleto de acontecimentos —, o desafio se intensifica. Falar sobre a China não é algo incomum hoje. Com os BRICS cada vez mais ativos na dinâmica global, e com a China ocupando um papel central entre os países que se projetam em oposição às hegemonias tradicionais, tudo que envolve o país desperta interesse. Multiplicam-se análises, interpretações e tentativas de explicação — algumas cuidadosas, outras precipitadas. Dentro desse mar de certezas, não posso ignorar o risco de que este trabalho se torne mais uma produção externa que pretende falar sobre a China. Assumo esse risco — mas com ressalvas. Embora eu fale sobre a China, falo a partir de uma China que me atravessou.
Minha relação com a China começou na adolescência, por volta dos quinze anos, com os primeiros estudos sobre o taoismo, guiados por uma professora que fora aluna do mestre Liu Pai Lin. Aquele modo de ver o mundo me marcou profundamente. E aquele país distante — distante dos imaginários populares da década de 1990, muitas vezes filtrados por estereótipos — passou a fazer parte da minha vida cotidiana de maneira concreta. Ao longo dos anos, seguiram-se outros encontros, como as aulas com o mestre Li, no Rio de Janeiro, com quem convivi semanalmente durante anos, e a construção de laços com inúmeros amigos chineses, fruto de trocas informais enquanto eu estudava mandarim e oferecia ajuda a estudantes chineses que aprendiam português. A China se tornou, antes mesmo da antropologia, parte do meu cotidiano.
A ideia de viajar pelo país foi amadurecendo conforme essas relações se aprofundavam. Quando, anos depois, ingressei na antropologia com um interesse particular pelos estudos étnicos, esse caminho acabou se fortalecendo de forma quase orgânica. O que até então era parte das camadas mais íntimas da minha trajetória começou a se articular com o que eu vinha estudando em Ciências Sociais desde 2015. Foi nesse encontro entre o pessoal e o acadêmico que o interesse pelas relações étnicas na China emergiu, dando forma ao que viria a ser,
mais tarde, o projeto de doutorado.