Ontem, depois de um longo tempo sentado em frente ao computador e de sentir minha atenção se dissolver por entre os detalhes de um texto, resolvi sair.
A noite estava agradável e as pessoas pareciam, ao meu olhar, ter saído de um filme. Caminhavam feito figurantes, com sorrisos alegres em plena terça.
Mas eu tinha um objetivo. Aquela caminhada não era um simples passeio proporcionado pelo tempo livre. Estava com fome. Fome de comida de verdade, se é que me entende.
Então, cheguei a um dos restaurantes da minha lista dos que nunca me decepcionam. Não que meu paladar seja exigente. Aliás, ele é bem simples. Mas, convenhamos, há lugares em que somos maltratados; e, depois de ter visto em um deles um bicho cujo nome prefiro não citar) caminhando livremente por uma das mesas e sendo ignorado pelos garçons, decidi ao menos criar algum critério para o bem da minha própria existência.
Saindo de lá, satisfeito mais uma vez, voltei a caminhar.
Precisava de um café e não queria esperar chegar em casa.
A atmosfera estava perfeita, quase cinematográfica. Caminhava feito pluma, e as músicas tocavam apenas nos meus ouvidos — aquelas mesmas de anos atrás, das quais não consigo enjoar, feitas de memórias.
Por um instante, fiquei indeciso: sorvete ou café? Eu merecia. Sempre adotei esse hábito de me presentear com coisas simples que me fazem feliz.
O café era mais tradicional, cotidiano; o sorvete, mais excepcional, com aquele ar lúdico de que algo surpreendente poderia acontecer.
A cada passo pela calçada, depois de ser atacado por um amontoado de mosquitos que quebrou a cena tentando me avisar sobre algo, não demorou para eu ver uma placa. Simples, preta, tipo um quadro escolar antigo, escrita a giz. Estava colocada na frente da loja, porém no escuro, como se sentisse vergonha de algo. Mesmo assim, ela anunciava: café, quatro reais, para levar.
Bom, quem gosta de café como eu sabe que ele transita entre dois mundos comportamentais. De um lado, existe a coletividade ou intimidade que a cerveja proporciona (que nunca me conquistou tanto, pelo exagero); do outro, a do café: aquele intimismo cotidiano das conversas de semana, quase fofocadas em tom baixo, ou dos lamentos que compartilhamos apenas com os amigos mais íntimos após uma refeição.
Mas eu estava sozinho, o que transformava aquele café — ou melhor, aquela necessidade — em apenas uma vontade desse toque de compartilhamento com alguém. Não me incomodava, porque sempre tive o hábito de pegar carona nessa capacidade da bebida e flertar sozinho com breves reflexões sobre a vida.
Entrei. Uma loja branca, parecendo uma mistura de fast-food de shopping com sorveteria de bairro.
Eu deveria ter desconfiado. Afinal, pelo preço e pelo lugar, a responsabilidade do que viria era quase minha. Mesmo assim, dei o primeiro passo rumo ao balcão.
— Qual é o café da placa? — perguntei, meio tímido, quase pedindo permissão.
Odeio quando meu corpo tem vontade própria e acaba agindo com uma simpatia que o comércio só acolhe por dinheiro.
— É esse aqui — mostrou a menina, pegando um copinho preto da largura de um dedão do pé.
Como aquilo poderia ser um café digno do que a bebida, por característica da nossa própria cultura, representa?
Não poderia. Nem pelo lugar, tampouco pelo tamanho, que era menor do que o bom e velho carioquinha de padaria.
— ...e é de máquina — completou.
A atendente tinha em si toda a simpatia que faltava ao café da loja e, por isso, me senti levemente coagido a aceitar.
A velha tática do constrangimento para fidelizar o cliente. Uma crueldade que às vezes consigo romper sob os olhares feios dos proprietários, mas ali não consegui.
Ao meu lado, um rapaz simpático, que já conversava com ela quando entrei, olhou para mim e disse: “Um cafezinho sempre é bom, né?”, abrindo um sorriso quase em conluio com a amiga.
Aqueles instantes foram eternos. Um potinho de papel preto pendurado entre os dedos da menina, que me olhava fixamente com os olhos levemente arregalados. Do meu lado, o rapaz sorrindo, como se o filme repetisse seu sorriso e fala em câmera lenta na minha cabeça: “...cafezinho… sempre bom, né?”.
Não teve jeito. Confirmei, ainda imerso na esperança. O que me incomodava era o tamanho e a latente armadilha na qual eu já percebera ter caído. Entendi perfeitamente a timidez da placa e o porquê de ela se esconder no lado mais escuro da calçada.
O filme voltou ao curso normal.
A atendente entrou e o rapaz, cumprida a sua missão, voltou-se para a rua, deixando-me ali, refém, naquela loja de iluminação branca.
Sempre desconfio desse tipo de luz para comida. São recados indiretos do dono, indicando que ele deseja que você vá logo embora e deixe seu dinheiro. Até agora não entendo o motivo de ter entrado.
Ainda solitário no balcão, voltei meus olhos para o montinho de onde ela havia arrancado aquele potinho minúsculo, que já me deixava decepcionado só de pensar que renderia apenas dois goles. Então, resolvi cometer o pior erro da minha vida (que exagero, era apenas o maior daqueles minutos).
Chamei a atendente novamente: — Você já preparou? Acho que vou querer um maior.
Ela voltou rapidamente e disse que já tinha preparado, mas que não havia problema. Poderia usar outro copo, dando-me a oportunidade de escolher o tamanho intermediário, que custava sete reais.
Aquilo me acalmou, como se a decepção com o tamanho pudesse compensar o sabor que uma máquina de café posta em uma loja de luz branca jamais conseguiria proporcionar.
Mas o que eu queria? Confesso mais uma vez: a culpa foi toda minha e aqueles mosquitos até que tentaram me avisar.
Ela me entregou o copo de papel, de borda mais grossa. Quase um copo antigo de festa de aniversário. Meio mole e quente (ao menos isso), completamente preto e sem expressão. De longe, poderia ser um copo de chá-mate bem forte ou até de Coca-Cola sem gás, mas era café. Sim, o café daquela placa envergonhada.
O que fazer? Eu já sabia o que viria como sabor assim que me deparei com meu reflexo boiando sutilmente em uma das espumas sobreviventes na superfície.
Quem gosta de café — não aqueles degustadores de internet que julgam mais do que bebem, mas quem tem o hábito de anos, tal como aprendi com meu avô sergipano na infância — sabe que nosso paladar se torna exigente. Não chato, mas exigente com o mínimo. E ali eu sabia que não encontraria nem isso.
Ao lado do balcão, havia uma pequena mesa com alguns “temperos”. Sim, temperos para o café: açúcar, adoçante, canela, chocolate e um pote grande, branco, com escritos em inglês, que em nenhum momento dizia do que se tratava. “Minha esperança?”, questionei internamente.
A atendente disse que era creme. Veja, creme. Era a minha saída. Um creme naquele café, que já apontava esfriar tão logo saiu da máquina (até a quentura era uma mentira), talvez fosse o que me salvaria. Afinal, o que vem à sua mente quando pensa em creme para um café?
No entanto, tudo ali era claro, vazio, repulsivo e falso. Como um creme guardado em um pote gigante estaria de graça como tempero? Era, nada mais nada menos, que um pó branco saindo de um plástico gordo para mergulhar no líquido. Um pó pesado que sumiu nas profundezas pretas, agora ainda mais frias, levando consigo até as pequenas espumas.
Bom, tomei. Fiquei ali, ouvindo os dois trocarem conversas cotidianas enquanto degustava a mais alta iguaria moderna produzida pelas máquinas que, em algum momento, começaram a substituir nosso hábito de oferecer qualidade na bebida que marcou nossa história e identidade.
Cada gole, mais frio. Antes fosse uma bebida gelada, mas não. Era um café que nem mesmo conseguia aquecer a ponta dos lábios, inviabilizando aquele ritmo de degustação em que a bebida se mantém digna e quente conforme a ingerimos.
Uma coisa era boa: não era fraco. Sim, estou sendo otimista. Mas imagine se, além de tudo, fosse transparente? Não teria nem como reclamar para a máquina, rompendo com a prerrogativa delas de anularem responsabilidades por um serviço ruim — tal como os sistemas de banco quando caem, mas não deixam de gerar renda para o dono com o nosso dinheiro.
Finalmente terminei. Joguei fora aquele copo de papel terrível e me despedi da funcionária e do seu amigo. A culpa não era deles, mas sim da máquina. Essas, sim, são as malditas que substituíram e encareceram nossa cultura popular produzindo o marketing da ilusão.
Me contradizendo, o café sim, ao menos dessa vez, surpreendera mais que o sorvete. Mesmo que negativamente.
Antes eu tivesse escolhido o sorvete primeiro. Pois é, foi ele, que encontrei tão logo atravessei a primeira esquina. Salvou-me daquele gosto horrível que impregnava meus lábios, colando-os levemente, enquanto a garganta repetia o amargor a cada saliva engolida. O café e a máquina: parceiros de um crime que não me largava por nada.
Ao menos esse café, cumprindo sua velha capacidade, também me proporcionou reflexões.
Voltei à minha caminhada convicto de nunca mais duvidar dos meus critérios. Além de evitar bichos caminhando pela mesa, eu precisava evitar lojas de luz branca que vendem cafés plastificados pela publicidade.
Ademais, devemos sempre confiar nas placas envergonhadas. Estas sim, estão ali obrigadas, tentando nos avisar do caráter enganador da publicidade feita por quem só deseja mesmo o seu dinheiro.
Ainda que apenas por uma vez.