Era apenas um degrau a mais, mas eu olhava para cima e via o infinito. Uma escadaria sem fim em meio àquela montanha, ladeada por árvores que pareciam arranha-céus a se tocar no topo, deixando passar apenas uma fresta de luz para que eu não me sentisse totalmente sozinho.
Embora estivesse escuro, era o meio da tarde, talvez por volta das 15h, e eu me encontrava nas entranhas de uma montanha no centro da China. Sozinho, subindo aqueles degraus seculares construídos no século XV, durante a dinastia Ming.
Aquele santuário natural, na verdade, não era apenas um pico, mas um complexo montanhoso a quilômetros dos centros urbanos. Eu estava ali, dando um passo de cada vez sobre os degraus lisos. Alguns, quebrados. Apenas o guarda-corpo de pedra, que também datava da mesma época, me garantia alguma segurança.
Olhei novamente para cima e para baixo. A escadaria se alongava nas duas direções como a cauda de um dragão. Todas as pessoas que haviam cruzado meu caminho cerca de vinte minutos antes sumiram, como se tramassem o meu isolamento.
O cansaço já me convidava à desistência, pois somavam-se em torno de três horas subindo degraus. Mas algo estava diferente naquele trecho. “Onde está o sol? Aquele céu azul que me acompanhara até aqui?”, pensei, em um leve desespero. Não obtive resposta.
Continuei subindo um degrau de cada vez, deixando chegar um pensamento por vez. Lembranças que se acumulavam a cada investida para cima. Comecei a sentir medo da solidão. Medo da dificuldade. Recordações de um passado turbulento.
Sim, os degraus foram os gatilhos. Parecia que Wudang me pregara uma peça, reservando aquele trecho vazio, escuro e solitário para despertar meus medos mais guardados e mal resolvidos.
Um peso no coração surgiu. “Mas eu preciso continuar subindo”, convenci-me, para não sucumbir. Lembrei de uma época específica em que a dificuldade não eram degraus, mas um somatório de acontecimentos que chegam em comboio para testar nossa resiliência.
De repente, a escuridão do lugar se transformou em uma escuridão interna, e a floresta, cada vez mais fechada, parecia me lançar em uma noite sem lua. “Desista”, sussurrou a voz, tal como na lembrança. “Não posso”, insisti. Chegar ao Palácio Dourado era um sonho que eu cultivava desde os quinze anos de idade, não importava a pressão.
Olhei novamente para cima… O dragão e sua cauda, que parecia se alongar a cada peso do passado que aflorava no meio da floresta. Os degraus de pedra se tornavam esteiras rolantes que não me tiravam do lugar. “Desista, volte”, a voz da sabotagem insistia. “Não posso, se eu venci em 2017, vencerei agora”, eu resistia… ou melhor, aceitava… enquanto me deixava viajar no tempo.
Talvez tenha sido esse o ponto de inflexão que tornou a infinitude finita. Eu me permiti lembrar daquele passado difícil, de outros passados difíceis. De todos os passados, até de alguns que parecia não ter vivido. Se no início dessa noite no meio do dia eu negava esse retorno, agora eu me permitia ir até lá e me entregar; e, conforme a entrega acontecia, o peso se aliviava.
Não era uma sensação de vitória, de resistência, de insistência ou de força, mas sim uma consciência do todo. Era um sentimento de humildade que vinha com a clareza de que resistimos, mas não somos deuses. Aprendemos, mas não somos mestres. Vivemos para trilhar a caminhada, e não para sermos maiores que o caminho.
Passou uma eternidade. Não consegui contar, foi como um transe temporal embebido pelo cansaço e pelos fardos que, aos poucos, eram deixados para trás a cada insistência em resistir, sem negar o que eu havia experienciado. Em insistir lentamente, degrau a degrau rumo ao infinito, na esperança de encontrar a cabeça do dragão.
Dentro desse tempo incontável, fui ficando mais leve… a infinitude do céu parecia começar a se abrir. As árvores deixaram cair as máscaras da escuridão e começaram, lentamente, a aparentar simpatia. A luz do sol apareceu como um raio único lavando um só degrau, que depois se tornaram dois, e três… e dez.
Afinal, ainda era por volta das 15h, mas eu não entendia o que tinha acontecido. Foi um trecho sombrio da peregrinação que pareceu um lapso no tempo, pois aquele caminho único, que levava tantas pessoas vindas de todas as partes da China e da Ásia, havia se tornado a minha própria noite.
Avistei um patamar com pessoas. Olhei para cima e vi o céu azul que agora aceitava, enfim, toda a minha humildade. Era o firmamento se apresentando como o Grande, aquele que informa ao ser humano sua pequenez mesmo diante de tantos inventos e vitórias pessoais.
Notei uma senhora e seu marido vendendo doces e chás em uma barraquinha simples. Pessoas descansavam. Já não me importava como elas haviam chegado ali.
Ao fundo, uma pequena gruta suspensa, cravada no meio das pedras na altura do coração, exibia portas vermelhas de madeira desgastada. Dentro, um santuário que se perdia no escuro me fitava a ponto de me hipnotizar.
Seria o mesmo Senhor do Mistério que há tempos me acompanhara?
Seria a cabeça do dragão?
Ainda não tinha chegado ao Palácio Dourado, mas estava perto. Dali, foram apenas alguns minutos de subida para alcançar o complexo.
Aquela experiência tinha me surpreendido a tal ponto que me vi alheio ao som e às pessoas, observando a imagem do oceano de montanhas que se formava por entre as árvores, as quais agora me permitiam ver o que estava além delas. Era um mar verde-água que se fundia na linha fina do horizonte com o azul do céu. Fiquei maravilhado. Senti-me presenteado.
O recado estava dado: somos fortes em nossa resistência, mas o céu e a terra são maiores e infinitos. Não cultive a arrogância de se sentir o todo. Vença suas batalhas pessoais, cultive o reconhecimento, mas compreenda-se como parte de um movimento maior. Maior que você, maior que as sociedades, maior que o mundo humano. Sua verdadeira força só existe quando se abandona o excesso de protagonismo.