Outro dia me lembrei como era a imagem da China entre meus amigos, anos atrás, quando eu tinha por volta de 15, 16 anos. Lembro que naquela época era comum os filmes de artes marciais enlatados estadunidenses, que misturavam culturas asiáticas em uma estética estereotipada, mas que faziam muito sucesso, inclusive entre nós.
Mesmo com essa salada estética, que tinha o objetivo de vender filmes e ajudar a propagar o imaginário exótico da Ásia, o Japão era sempre visto como o primeiro lugar de valor e talvez o único que conseguia se destacar entre essa confusão cultural de Hollywood. Claro que isso não acontecia apenas por afinidade, mas refletia um contexto geopolítico construído na relação entre os Estados Unidos e o Japão após a Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, o Japão era tido como um lugar exótico, de pessoas superdotadas, com alta tecnologia e gastronomia valorizada.
Foi nessa época que comecei a me interessar pela China, e meus amigos sempre me classificavam como "o estranho" por isso. Não era um estigma, mas uma curiosidade que eles tinham sobre o porquê eu me interessava pelo país. Nem mesmo eu sabia a resposta.
Enquanto o Japão era a referência positiva, países como a China ainda eram retratados sob a ótica da pobreza. Mesmo que Bruce Lee (李 振 藩, Lee Jun Fan) tenha despertado atenção para a multiplicidade cultural chinesa e lutado contra a xenofobia que sofria nos EUA, a narrativa cinematográfica dominante é poderosa. Ela cristaliza, por meio de emoções e identificação pessoal, imagens que sustentam opiniões cuidadosamente moldadas sobre um povo.
Se antes a China era marginalizada na cultura pop, hoje ela desafia o Ocidente e outros países, como o Brasil, em um campo ainda mais sensível: a inovação tecnológica. E, assim como no cinema, a narrativa dominante ainda tenta enquadrá-la em um eixo de comparação, como se houvesse um único modelo válido de progresso e desenvolvimento. Mas a questão é que, pela primeira vez, a China não está apenas competindo dentro dos padrões ocidentais — ela está oferecendo um modelo próprio, que funciona dentro da sua lógica histórica, política e social.
Hoje, algumas décadas depois, a maioria das pessoas se encontra em uma contradição quando fala sobre a China. O DeepSeek faz parte de um movimento de quebra de paradigma que já vem acontecendo há algum tempo. Assim como outras tecnologias chinesas, ele impõe ao "ocidental médio" um choque porque o obriga a aceitar que aquilo que se aprendeu como receita para o aprimoramento social — e que nós, enquanto não ocidentais, fomos historicamente ensinados a copiar — agora vem de outra forma, de outro contexto, onde a sociedade se desenvolveu com base em outros parâmetros, sobretudo filosóficos.
Claro que essa contradição não é homogênea. Há aqueles que enxergam a China como um concorrente legítimo, aqueles que ainda a veem sob a lente do exotismo ou da ameaça, e um grande grupo que simplesmente não sabe como interpretar essa mudança.
O que antes parecia um país distante e economicamente irrelevante agora ocupa um papel central em discussões que vão da inteligência artificial às novas formas de governança digital. Essa mudança de status não veio acompanhada de uma transformação equivalente na percepção ocidental, e é aí que surge o desconforto.
O debate sobre "censura" está ancorado dentro desse processo. A China nunca escondeu que regula o uso de seus aplicativos, até porque isso ocorre nos termos da sua regulamentação sobre a internet (que já existia muito antes desse debate chegar aqui, diga-se de passagem). E veja, eu falo da sua regulamentação, e não da regulamentação que um brasileiro, europeu ou estadunidense concordaria; afinal, esses não são chineses e tampouco representam um parâmetro para o mundo, muito menos para a sociedade chinesa ou qualquer outra.
Dito isso, é inegável que a regulamentação da internet na China gera debates intensos. Para alguns, ela representa um modelo alternativo válido, alinhado a uma concepção mais coletiva de sociedade. Para outros, é um obstáculo à liberdade individual — um conceito que, pasmem, não é universal, mas fortemente enraizado na visão ocidental de sociedade. O que importa aqui é reconhecer que esse modelo opera dentro de uma lógica própria e que tentar analisá-lo exclusivamente pelos critérios ocidentais inevitavelmente resulta em leituras superficiais.
O ponto é que o aprofundamento que o DeepSeek propõe vai além e é mais radical em termos de transformação social do que "apenas" no campo das inteligências artificiais. As pessoas estão usando e citando restrições, mas, curiosamente, também estão percebendo que as outras IAs ocidentais sempre foram enviesadas. Essa é a quebra do paradigma que menciono aqui, a descoberta de que esse lugar de isenção, uma espécie de ponto neutro, nunca existiu.
Mas quando foi que disseram que a internet deveria ser um território marginal à regulamentação, em vez de um espaço profundamente inserido nas relações sociais e sujeito às regras já consolidadas?
Os ventos mudaram muito desde a minha adolescência, e essas transformações afetam a nós, brasileiros, tanto quanto os países ocidentais. Enquanto isso, os chineses seguem fazendo o que sempre fizeram: sendo e se mantendo como são.
Feliz ano da serpente.