Por que é tão triste lembrar de viagens que marcaram a nossa vida? (o dilema do pós)

Capa: Por que é tão triste lembrar de viagens que marcaram a nossa vida? (o dilema do pós)

Desde 2024, quando fui para a China, tudo mudou completamente. Hoje, eu vivo a ressonância disso, mas confesso que ainda não sei lidar bem com tamanha transformação. É tão triste lembrar de viagens que marcam a nossa vida.

Lá eu cumpri a tarefa, vivi as experiências que a pesquisa para o doutorado exigia. Isso também foi muito bom, claro, mas o que eu quero falar aqui não são coisas de faculdade. Já dediquei boa parte do meu tempo para essas burocracias úteis. Quero falar das mudanças que a viagem provocou no meu íntimo, que está latente, ainda em 2026. Eu sei, isso não deveria ser assim.

Muita gente viaja e volta transformado. Aquelas viagens mais importantes, longas e desejadas, impactam ainda mais e promovem transformações profundas. No entanto, depois de um tempo a vida segue e o frescor cai no esquecimento.

Porém, não no meu caso. Ou pelo menos não tem sido assim desde que desembarquei no aeroporto do Galeão, dia 1 de novembro de 2024. Antes de ir eu carregava uma bagagem prévia no meu íntimo, na minha história e, diferente daquela de roupas que resgatava no aeroporto, esta se transformou no dilema do pós.

Caso você ainda não saiba (e provavelmente não sabe) minha vida sempre fora permeada pela China. Não de uma forma dita aos ventos, como faço hoje, mas de forma íntima. A escolha do objeto de pesquisa foi o que trouxe para fora o que só existia internamente.

Você pode estar se perguntando como assim, íntima?

Bem, é uma longa história. Diante das dificuldades da adolescência, em um ambiente não tão funcional, encontrei nos livros de filosofia taoista um recurso de autocompreensão.

Os dilemas familiares me tiravam do eixo, me colocavam sempre no lugar do erro, mas os livros eram o meu refúgio. Ali, silenciosamente, mergulhava em uma proposta de visão de mundo que me ajudou a formar quem eu sou. Aos poucos, sem perceber, aquele conhecimento me moldou tanto que se tornou impossível, na fase adulta, não me identificar com tudo que vinha de lá.

Com os anos vieram os amigos chineses, o idioma, a pesquisa e, finalmente, 2024. Fui às cidades que precisava e também fui ao centro, em Hubei, para visitar Wudangshan, um complexo de montanhas sagradas que me marcara ainda nas primeiras leituras.

Subi até o pico, conheci o Palácio Dourado e ali, diante daquela imensidão de verde ancestral, vi minha vida chegar ao ponto auge de realização.

Em um primeiro momento foi como se eu tivesse terminado os capítulos de uma série, precisando, agora, de coragem para enfrentar a abstinência dos personagens, a vida fora da tela.

Mas o impacto passou e me dei conta que as mudanças inspiram, sustentadas na confiança de que nossa vida é como o curso de um rio, que apesar dos desvios momentâneos está sempre indo em direção ao mar.

Ou seja, pensando por esse lado, talvez o que tenha acabado seja apenas uma temporada. A primeira. Aliás, se estou aqui, os amigos também estão e o impacto persiste apesar do tempo, certamente nada terminou.

Dessa forma, hoje vivo o dilema do pós. O que não é triste. Mas talvez seja melancólico, porque na segunda temporada os personagens mudam de postura, os cenários se transformam, algumas pessoas já não fazem parte do elenco e nós, o personagem principal caminhando na própria história, sentimos o impacto de tudo o que vivemos no primeiro ato.

Eu precisava de um escape, pensei.

A solidão da experiência realizadora não poderia virar um fragmento de memória guardada nas gavetas do que vi, provei e conheci.

Fiquei, então, obcecado pela ideia de transformar tudo em um livro, não só como relato, mas como detalhamento claro de como cada rua percorrida e cada passo subindo Wudangshan me modificou.

Mais do que ter um objeto concreto em mãos, era a solução possível que eu tinha. Era a tentativa de agarrar a memória que, de tão fugaz, escorre pelos dedos.

Não vou conseguir agarrar por completo, eu sei. Mesmo assim o que me motiva é poder pegar esse livro e reviver os fragmentos do íntimo que a China ocupou durante minha passada por lá. E ainda ocupa enquanto lugar que, mesmo antes de eu conhecer fisicamente, já tinha me mudado para sempre.

Dessa forma, volto ao início desse desabafo crônico, em crônica.

É triste lembrar da viagem porque desejamos, como crianças, que os momentos sejam eternos, não posso negar isso. Se eu voltar lá hoje, agora, em uma epifania de viagem no tempo, tudo seria diferente.

Mas lembrar também é estranhamente bom. Semelhante à melancolia de quem já não está mais na primeira temporada da série, mas com a expectativa de que a segunda seja ainda mais transformadora. Afinal, água parada apodrece.

Essa ressonância, agora vejo, é o impacto do novo e justamente por isso a gente não sabe lidar. Quem saberia? Somos humanos na batalha diária de aprender a viver.

No fim, vencer é solitário, mesmo que você esteja em um palco recebendo aplausos. Mas, calma, a chave não é ficar triste com isso, mas reconhecer por quem você venceu.

Não importa se alguém está lendo este texto ou quantos comprarão o livro de um cara aleatório na China. O que importa é o quanto aquele meu eu do passado se sente feliz por ter sido a base para quem eu me tornei hoje.