Quando estive em Wudangshan (Montanha Wudang), uma das coisas que mais me marcou foi ver como o lugar está vivo. Ao caminhar pelas estradas de pedra entre os templos e palácios, não encontrei apenas turistas: vi praticantes de artes marciais treinando, rezando, repetindo gestos de uma tradição antiga.
No Palácio Zixiao Gong (紫霄宮 — Zǐxiāo Gōng), em especial, a experiência foi mais forte. Sua beleza arquitetônica somada à presença dos praticantes fez com que a visita se tornasse algo mais do que contemplação. É um espaço ativo, religioso e marcial, em que o visitante só tem acesso a alguns pontos e em determinados horários.
Wudangshan é reconhecida como um dos berços do Wudang Wushu (武当武术), com destaque para o Taijiquan (Tai Chi Chuan). Próximo ao hotel em que fiquei, havia templos onde a figura lendária de Zhang Sanfeng (张三丰) estava presente em murais, estátuas e referências que ligam a montanha diretamente ao nascimento do Taijiquan.
O que vi ali confirma que o legado não é apenas turístico, mas exemplo da característica que muito especialista em China confirma sobre a relação da população com seu legado histórico. É uma tradição que combina prática religiosa taoísta e artes marciais internas. Para mim, a experiência foi incrível, principalmente pela importância que as artes internas taoístas tiveram na minha vida.
As artes de Wudang se distinguem pelo foco na suavidade que esconde a potência, refletindo conceitos como Yin-Yang, os Cinco Elementos e os Oito Diagramas. Diferente da ideia comum de artes marciais como força bruta, aqui o gesto marcial é entendido como caminho de equilíbrio, longevidade e integração com a natureza.
Do ponto de vista antropológico, essa perspectiva amplia o sentido de “arte marcial”. Em Wudang, o treino não é só preparação para enfrentar um adversário, mas um ritual de corpo e espírito, uma pedagogia simbólica que transforma a relação do praticante consigo mesmo e com a comunidade.
Essa visão ressoa em outras tradições, como o Xondaro Guarani, prática indígena que também não se reduz à luta física, mas envolve identidade, espiritualidade e política em movimento. Tanto em Wudang quanto entre os Guarani, a performance marcial pode ser uma estratégia de resistência, de afirmação e até de “vencer sem tocar”, usando a força da imagem, do gesto e da coletividade.
Estar em Wudangshan foi muito interessante, sobretudo porque eu já havia escrito o livro. Lá pude perceber como as artes marciais internas realmente possuem mais aspectos da performance marcial do que outras voltadas para o combate direto (mesmo que ainda guardem sentidos para além do contato físico).
Para quem chega apenas com o imaginário de filmes ou fotos, há a confirmação de que se encontra um espaço ativo, onde religião, filosofia e marcialidade se entrelaçam. No entanto, há também o peso da vida concreta e a surpresa de perceber que o imaginário cinematográfico não pode ser base de sustentação de uma prática que, muitas vezes, é solitária, leva tempo e diz muito mais sobre nós e nossos desafios pessoais do que sobre exibições vazias.
A montanha, assim, continua a ser um centro de espiritualidade e prática marcial. É um estímulo visual para os que chegam com personagens na mente, mas muito além de um cenário turístico: há também os espaços restritos, os “personagens” reais, a vida religiosa que permanece ativa desde a Dinastia Tang (618-907 d.C.), seguindo o legado de Zhenwu (真武).