Passado esse furacão que foi o mês de outubro de 2026 e o absurdo que foi a Meta abertamente tentar manipular o resultado das eleições, vejo muita gente falando que o Brasil precisa fazer como na China e ter as próprias redes sociais, mas a China é um país diferente do Brasil. Para que a gente tenha algo semelhante, ainda há algumas pendências que o país está procrastinando há anos.
Devido ao meu interesse acadêmico e pessoal sobre a China, acabei conhecendo as principais plataformas que operam lá e as uso até hoje para manter contatos com amigos chineses. Embora seja uma internet diferente — e para quem está acostumado com o ecossistema Google, Instagram e WhatsApp, possa parecer muito confusa —, os aplicativos básicos do dia a dia, principalmente o WeChat, operam de forma a se adaptar às necessidades locais sem que o interesse comercial se sobreponha à preservação do coletivo e ao uso saudável.
Ter uma internet brasileira inspirada na China, capaz de unir muitas funcionalidades de forma livre de interesses estrangeiros e adaptada à nossa sociedade, é fundamental, mas isso, embora pareça algo simples, esbarra em alguns pontos legais e comportamentais específicos ao nosso contexto sociopolítico, problemas que a China hoje não tem.
Na China, o Estado tem o controle sobre quais empresas vão operar no país e lá existe uma legislação rígida sobre a atuação dessas empresas no ambiente digital.
Como explica Guang Shan no seu livro Internet Law in China (2012):
O Regulamento de Telecomunicações da República Popular da China (RPC): A Internet é considerada parte do setor de telecomunicações, tendo como principal órgão regulador o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), o qual mantém agências reguladoras de telecomunicações subordinadas em todas as províncias, regiões autônomas e municípios chineses. Além disso, a Internet está sujeita à regulação de diversos outros órgãos administrativos no que tange à prestação de serviços específicos. Por exemplo, sites que realizam atividades de publicação na Internet são regulados pela Administração Geral de Imprensa e Publicações (GAPP) e seus órgãos subordinados locais; já sites que disponibilizam programas audiovisuais são regulados pela Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (SARFT) e seus órgãos subordinados locais. Até o momento, pelo menos 14 agências reguladoras estiveram envolvidas na regulação da Internet, tendo editado mais de 50 normas e regulamentos administrativos sobre o tema. Pode-se afirmar, portanto, que a China desenvolveu o sistema de regulação da Internet mais abrangente existente (tradução nossa).
Portanto, não, não é “censura” como durante anos a internet chinesa foi acusada, é uma legislação que foi debatida e construída ao longo do tempo, seguindo princípios que são pertinentes àquela sociedade.
Guang Shan também explica que:
Organizações de mídia jornalística têm permissão para cooperar com entidades que não são organizações de mídia jornalística na prestação de serviços de notícias pela Internet. Se 51% ou mais do capital social de um site de notícias pertencer à organização de mídia jornalística, o site será considerado como estabelecido por uma organização de mídia jornalística; caso contrário, será considerado como estabelecido por uma entidade que não é uma organização de mídia jornalística. Vale ressaltar que tal cooperação é restrita a empresas nacionais. Atualmente, não é permitido a nenhuma organização prestar serviços de notícias pela Internet sob a forma de empreendimento conjunto (joint venture) sino-estrangeiro — seja na modalidade de participação acionária ou de cooperação —, nem como empresa de capital integralmente estrangeiro (tradução nossa).
Dentro desse contexto, empresas tipo Google e Meta não aceitam a legislação local porque a lei impõe limites para empresas estrangeiras na produção de conteúdo informativo.
Como elas querem ter o controle de narrativas internas sobre o país, são proibidas de operar e acusam a China de fazer censura. No entanto, o que garante que uma empresa estrangeira tem mais legitimidade jornalística do que empresas locais? Se há restrições informativas produzidas pela China, isso deve ser um problema da população chinesa, em vez de uma empresa estrangeira se apresentar como detentora da verdade e da liberdade absoluta.
É nesse ponto que podemos voltar ao Brasil.
Em uma comparação ilustrativa com a situação brasileira, é como se o Google ou a Meta fossem os bastiões da verdade e da liberdade, os únicos capazes de apresentar uma Verdade sobre o Brasil. Não podem e se existir algum problema interno envolvendo toda a produção midiática no país (como uma censura), ele é um problema dos brasileiros e não dos Estados Unidos. Nesse sentido, a China serve sim de exemplo, embora nossa institucionalidade seja ainda fluida o suficiente para ser impactada pela influência dessas próprias empresas, de modo que regular a internet se torna uma muralha a ser vencida.
Ou seja, criar nossas próprias redes sem regular as empresas estrangeiras não muda muito a dinâmica de poder dentro do ambiente digital.
A construção de plataformas como o WeChat — o principal aplicativo que sustenta todo o ecossistema digital chinês, integrando chat, perfil pessoal com mural de publicações, páginas de busca, artigos, canais com vídeos curtos etc. — foi feita seguindo as necessidades do país e adequada às normas regulatórias internas e não aos interesses de grupos comerciais estrangeiros.
Além disso, as empresas de tecnologia são incentivadas a integrar utilidade pública e projetos comunitários diretamente na arquitetura de seus aplicativos.
Um exemplo emblemático foi o projeto WeCountry, explicado por Yidan Chen no livro Internet Philanthropy in China (2021), que utilizou a infraestrutura do WeChat para conectar áreas rurais isoladas à governança local, ao e-commerce de combate à pobreza e a serviços públicos de saúde e educação. Na pandemia, o WeChat possibilitou a construção de grupos de voluntários que foram extremamente eficientes e de forma independente de qualquer decisão estatal, o que permitiu, posteriormente, que as próprias medidas produzidas pelo governo pudessem integrar tais iniciativas.

Vida rural na China
Tudo isso mostra como a tecnologia pode ser direcionada para a coesão social em vez do mero extrativismo de dados para fins de dominação estrangeira ou interesses de grandes grupos comerciais.
A internet brasileira, por sua vez, ainda está carregada desse ar noventista de que a interação virtual representa um espaço de liberdade (individual) incondicional, transformando qualquer regulação — tal como deveria acontecer com outros meios de comunicação que possuem o monopólio informativo em todo o território — no mal a ser combatido.
É interessante, nesse sentido, ler o que diz Guang Shan sobre os direitos individuais na China:
A Constituição também enumera os direitos e deveres fundamentais dos cidadãos chineses. Tais direitos incluem a igualdade perante a lei; a igualdade entre todas as nacionalidades (grupos étnicos); a liberdade de expressão, de imprensa, de religião, de reunião e de petição; a liberdade e a privacidade da correspondência pessoal; o direito à dignidade pessoal; o direito de criticar órgãos estatais; direitos sociais e econômicos; direitos culturais e educacionais; e direitos relacionados à família. Contudo, esses direitos estão vinculados a deveres sociais, tais como o pagamento de impostos, a prestação de serviço militar, o respeito à lei e à ética social, bem como a salvaguarda da unidade, da segurança, da honra e dos interesses do país. Muitas dessas disposições exercem um impacto, direto ou indireto, sobre as atividades de indivíduos e organizações na Internet (tradução nossa).
Como pode ser notado, a internet chinesa não é um lugar onde opera a vontade de um ditador excêntrico, como imagina ainda o olhar ocidental. Ela garante que as pessoas possam exercer sua liberdade, mas condicionada aos elementos que afetam a segurança nacional e o bem público. Quando olhamos para o Brasil, percebemos que a narrativa de censura disfarçada de regulação é, na verdade, uma leitura ingênua, porque toda a internet é sustentada por grandes empresas que têm o poder de determinar o que e como deve ser apresentado para o usuário. Elas vão operar conforme seus interesses privados e não seguindo os interesses coletivos do país, a não ser que exista uma legislação que as obrigue a operar de forma transparente e sem subverter o bem-estar social.
Além de todo esse complexo problema político e institucional que envolve a internet no Brasil, há o comportamento social de uma parte da sociedade brasileira que se acostumou com o ambiente digital dentro das Big Techs estadunidenses.
Na China praticamente toda a sociedade já se sente satisfeita com seus próprios aplicativos e prioriza a produção nacional com mais facilidade. Isso acontece devido ao próprio senso de unidade nacional, a uma forte identidade coletiva que foi construída por séculos de história, o que faz com que a adesão a um aplicativo nacional, simplesmente por ele ser nacional, aconteça de forma mais espontânea.

WeChat é um dos aplicativos mais utilizados na China.
Aqui no Brasil, contudo, teria que ser feito um trabalho gigantesco para incentivar a migração, considerando, inclusive, que muitos usam Google, Instagram ou mesmo o Facebook, por eles serem estrangeiros e carregarem esse senso de algo “universal” (leia-se, estadunidense), “melhor” do que o nacional.
O furacão do segundo turno passou. Vencemos a batalha, mas não a guerra. 2027 se apresenta com um congresso recheado de extrema-direita, com um centrão acuado e uma esquerda renovada, porém, ainda reduzida.
Lula opera na lógica da negociação política, mas o que já vinha conversando com amigos desde 2023, e agora vejo claro como nunca, é a dificuldade desse modelo se sustentar e oferecer transformações sociais mais rápidas. O mercado já tenta pôr seu cabresto de sempre, a mídia já começa a demarcar seu território argumentativo e a internet, bem, essa ainda opera encabrestada pelo Google e, principalmente, pela Meta.

Concresso brasileiro.
Como aprovar uma regulação? Como criar um ecossistema brasileiro sem que todo o reacionarismo do congresso grite a boa e velha tática da preservação da liberdade de expressão? Feito tudo isso, como oferecer às pessoas motivos suficientes para migração? São desafios imensos que a China, com todo o seu pragmatismo e controle sobre os interesses comerciais predatórios de grandes empresas, já superou há décadas.
Por fim, criar uma rede social brasileira não é uma questão de tecnologia, mas de capacidade política do país de convencer um congresso babando de raiva ao ouvir a palavra “regulação”, de ir de encontro aos interesses estadunidenses que certamente ecoarão no congresso, de promover um movimento coletivo de migração.
É possível. Isso já aconteceu no passado quando todos migraram do Orkut para o Facebook, mas não é espontâneo.